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Relatos de Parto

Relato de Parto Alessandra + Michiel = Rebeca

Parto normal após 2 cesárias - vaginal birth after 2 cesarians - vba2c (maio 2016)

Era dia sete, e já estava vencendo meu prazo de validade. É... eu tinha um prazo que se completaria com 42 semanas de gestação e se assim se desse, a cena se reconstruiria na minha vida, a cesárea de  dez e dois anos atrás.

Há dez anos, na minha primeira gestação, não tinha o conhecimento de hoje, sabia que o parto normal era mais benéfico, mas muito superficialmente, quando cheguei às 38 semanas e meia, era dia vinte e dois de dezembro e, coincidentemente tive uma indicação pra cesárea que, confesso, até hoje se me disseram, não lembro qual foi.
Há dois anos e nove meses, na minha segunda gestação, já tinha mais informações, já conhecia a Adriana (que seria minha futura doula), já havia freqüentado algumas rodas que ela ministrava e tinha total certeza que só dependia da minha vontade para ter o meu tão querido e esperado parto, que hoje, já o chamava de natural.
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Parti pra árdua luta de tentativa de convencimento do meu GO na época, achei que tinha surtido algum efeito, embora ele tenha franzido a testa quando falei “doula”.
Que tola, mal sabia que estava sendo levada a banho Maria até o final da gestação, quando, às 39 semanas e meia, a noticia era: - Não temos dilatação, sua idade gestacional é avançada e o risco de ruptura uterina é muito grande devido à cesárea anterior, que havia sido há 7 anos e meio!!!!


Mesmo D-E-S-C-O-N-S-O-L-A-D-A não tive coragem suficiente de brigar pelo que queria, saí do consultório com os olhos cheios d’água e uma guia de internação na mão para a próxima segunda. Morri de vergonha de contar pra alguém que estava indo pra próxima cesárea, e minhas chances de parir se esvaído pra sempre... pois é... teoricamente seria minha última gestação. Rezei por um final de semana inteiro escondida, pra que entrasse em trabalho de parto, o que também me arrependi um pouco, pois não era pra ser no “meu momento”, mas sim no momento da minha filha. Enfim, às seis da manhã do dia vinte quatro de junho, estava lá e não demorou mais que 20 minutos, num um ambiente hostil e frio, recebi minha segunda princesa nas mãos.


A partir daí, por algum motivo muito subjetivo o qual só vim a descobrir agora, ainda continuei em busca de mais e mais informações, todas, absolutamente todas as mulheres que eu tinha possibilidade tentava instruir de alguma forma, e muitas vezes mostrar pela primeira vez os infinitos benefícios do parto natural.


Acredito que de certa forma Deus me presenteou.


Em dois mil e quinze, acredito que por um sinal divino, mudei estrategicamente de GO, até hoje me arrepia ter tomado essa decisão, porque como já relatei, não havia planos para uma próxima gestação, mas hoje sei que o meu íntimo já sentia os planos que me aguardavam.


A Dra. Izilda foi um amor, me questionou sobre o porquê da mudança, me orientou e me deixou muito entusiasmada. Ainda saí de lá ouvindo assim: - No retorno, aposto que virá grávida. BATATA!


Foi quando em treze de julho de 2015, descobri minha terceira gestação, não planejada, mas surpreendentemente bem vinda.


Diante da novidade que pairava na minha vida naquele momento, ainda dentro do banheiro, após o exame de urina, não havia outro pensamento: EU QUERO PARIR!!!


Sabia que a batalha ainda era dura, tinha que convencer o marido, deixar a mãe confortável, e não porque precisava de algum aval, mas sim porque essas pessoas iam ser essenciais no apoio que eu precisava. Sem contar ainda com todos os narizes torcidos e os deboches que iria enfrentar, mas não me importava, tava completamente disposta.


Acrescentei às leituras tudo aquilo que já tinha me informado tempos atrás, entrei em contato com a Adriana, continuei meu pré-natal com a Dra Izilda até quase o final, quando soube que ela teria uma viagem para fora e por este motivo não me acompanharia no parto. Foi o primeiro baque, e confesso também que tive um deja vu não muito bom. Mas as palavras de força e carinho da Adriana me levantaram, ela dizia que estaria sempre comigo, e que tudo iria dar certo.
Acrescentei às leituras tudo aquilo que já tinha me informado tempos atrás, entrei em contato com a Adriana, continuei meu pré-natal com a Dra Izilda até quase o final, quando soube que ela teria uma viagem para fora e por este motivo não me acompanharia no parto. Foi o primeiro baque, e confesso também que tive um deja vu não muito bom. Mas as palavras de força e carinho da Adriana me levantaram, ela dizia que estaria sempre comigo, e que tudo iria dar certo.
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Continuei.

Já quase com 36 semanas, conheci o Dr. Gilberto, e não tive dúvidas que seria ele que me acompanharia dali pra frente, muito cuidadoso, não se cansou de me orientar com muito carinho sobre todas as possibilidades que poderiam ocorrer. Ele dizia muito sobre aguardar o que a natureza me reservava, e isso me ajudou muito a compreender que dependíamos de um conjunto de equilíbrios, emocional, espiritual e físico. Daí veio o segundo baque, ele iria viajar também, por um curto período, mas suficiente pra me deixar tensa. Não esmoreci, sabia o que desejava e após muito conversar com a Adriana não tinha receio de mais nada. Na última consulta antes dessa viagem, meu colo do útero estava curto, não havia dilatação, mas isso era um progresso o qual nunca havia passado nas gestações anteriores. Viva!


Retornamos às consultas semanais e essa era a mesma situação, implorava por um centímetrozinho de dilatação, mas por duas semanas nada, somente o colo curto e as contrações de treinamento a todo vapor, intensas, mas totalmente irregulares.


Desde minha primeira ultrassom havia uma diferença de uma semana entre a DUM e a data que a ultrassom obtinha. Ou seja, pela DUM completaria quarenta semanas em 08/03/2016 e pela ultra aos 02/03/2016. Isto poderia parecer menos importante aos olhos dos outros, mas pra mim era como se eu tivesse perdendo uma semana, por este motivo que reitero o que disse no início deste relato, eu tinha um prazo de validade. Após as quarenta e duas semanas por conta de todo o histórico gestacional, definitivamente não haveria indução de forma artificial.


Quando completei quarenta semanas (pela ultra) fui indicada pela Dri a conhecer a Ju, a fisioterapeuta e doula que faria umas sessões com exercícios, acumpuntura além de um chazinho maravilhoso. Fiz somente a primeira sessão.


Nesta mesma semana tinha a consulta na sexta-feira como de costume. Fui examinada e a situação era idêntica. Dr. Gilberto me disse que não seria ainda no final de semana, então agendamos cardiotoco para terça-feira seguinte, ultra para quinta e consulta na sexta-feira. Já tinha incorporado que nem mesmo naquela semana Rebeca chegaria. Conversei muito com ela e dizia que se tinha algo que eu havia falado ou pensado que tivesse impedindo sua chegada, que me perdoasse, porque eu já a amava tanto e queria vê-la em meus braços, mas também respeitava o seu momento.


Passei o final de semana caminhando, e me movimentando bastante. Segunda-feira fui trabalhar normalmente, não havia parado inclusive, pela manhã senti uma dorzinha que dava absolutamente pra se confundir com cólica intestinal leve, não quis levar em consideração porque não me imaginava alimentando falsas expectativas.


Saí do trabalho, peguei as meninas na escola e quando entrei em casa senti uma dor que vinha com a contração como nunca tinha sentido, comecei a observar e tive certeza que agora eram contrações com dor, leve, mas estavam chegando, fiquei radiante, acho que por dentro queria explodir de felicidade, mas também sabia que isso poderia ser sim o começo de tudo, ou ainda nada considerável, mantive a calma e liguei pro marido, avisei como estava e pedi pra ele vir pra casa, isso eram 18h20.


Ele chegou por volta das 19h00, estava bem, quando contraía só me calava, mas estava tudo suportavelmente controlado. Fui ao banheiro fazer xixi e percebi que meu tampão tinha saído, até tremi, mesmo que eu quisesse meu sorriso escapava e eu estava doida pra me entregar àquele momento de corpo e alma.


Mandei mensagem pra Adriana, mas ela estava dando aula de yoga, então deixei recado com a Ju, pra que ela me retornasse.


Resolvi algumas coisas que precisava, fomos à farmácia, ao supermercado, e voltamos pra casa. Doía ás vezes, mas era muito gostoso. A Adriana ligou e falei meu estado, ela sabia que ainda tínhamos tempo e pediu que eu a aguardasse em casa, ela viria após terminar seus compromissos.


A dor apertava, baixei um aplicativo no celular pra cronometrar as contrações, me assustava porque variavam de 10/10, de 5/5, 3/3, 7/7, retornavam para 10/10, e seguiam nesse ciclo, mas estava muito bem e feliz. A Dri chegou por volta das 23h00 e conversamos muito, demos risada, ela me distraiu, as dores vinham, mas não sentia tanto enquanto estávamos naquela vibração. Eram quase 02h00, e ela me disse pra descansar, tomar um banho e aguardar o dia seguinte.


Fiz conforme ela orientou e dormi que até sonhei, o que, diga-se de passagem, era um absurdo em minha concepção, foi aí que percebi que nessa hora tudo é muito diferente do qual imaginamos que seria. Acordei por volta das 5h00 com dores que já me incomodavam, permanecer deitada não parecia a melhor opção, fui pro chuveiro e a água quente na lombar era mesmo tudo aquilo que tinha ouvido, quase um milagre na dor. Marido e filhas dormiam, fui pra sala, tomei café da manhã e assistia os jornais, a dor agora não me deixava com o sorriso nos lábios.


Mandei mensagem pra Dri, todos acordaram, marido levou a mais nova pra escola e fiquei com a mais velha que se desdobrava pra me agradar, principalmente enquanto dava umas contorcidas no sofá de casa. A Dri  me respondeu e disse pra eu avisar o Dr. Gilberto sobre a situação, pra sabermos se era o caso de antecipar o horário do cardiotoco. Mandei mensagem pra ele, que imediatamente me pediu para ir ao consultório pra que me examinasse.


Não me imaginava levantando do sofá, a Dri ainda nas mensagens me perguntou se tinha conseguido caminhar, sugestão dela da noite anterior para aquele dia, mas da forma como eu estava não tinha a menor possibilidade disso acontecer. Tanto é que não me imaginava no trajeto casa/ consultório. Fomos. Óbvio que não pude deixar de ter contração dentro do carro e do elevador de casa e do consultório, afinal de contas tinha que ser com emoção.


Entrei direto, me dei conta que estava sem maquiagem e descabelada.
Dr. Gilberto me examinou e para nossa surpresa 6 cm quase 7cm de dilatação, mal podia conter minha felicidade, estava no caminho certo e a tal natureza tava mesmo do meu lado, tudo conspirava a favor. Dali direto para a maternidade, já sabíamos que a sala de parto adequado estava desocupada e pra lá fomos, a Dri também. Chegamos praticamente juntas.


Isso era por volta das 12h00, era um dia bonito de sol e calor, era um dia especial, comemorativo, dia internacional da mulher. A orientação do Dr. Gilberto era muito exercício com bola. E assim fizemos, fizemos outros também, a dor já tinha cessado um pouco, nada comparado à manhã, mas também sob toda aquela sintonia de vibração de conversas, risadas, muito carinho e amor não havia de ser diferente. Cheguei a pensar por um momento, muito rápido, que teria que retornar pra casa, mas nem me deixei levar nesse pensamento e me foquei no que aguardei por tanto tempo.
As horas passavam e nada de ritmo nas contrações, por volta das 15h/16h senti o tal do “PLOFT” fui ao banheiro e percebi que já não era mais sangue e sim um líquido, desconfiei da bolsa, o que mais tarde se confirmou quando Dr. Gilberto me examinou e verificou, dilatação completa. UHULL!!! 10 cm de dilatação, o que mais eu queria? Queria que ela descesse mais, estava tudo ok, mas ainda era necessário sua descida, foi quando começamos uma outra série de exercícios.


Logo em seguida as dores vieram em maior intensidade, Michel cronometrava enquanto a Dri massageava a lombar e meus quadris o que era muito bom pra aliviar a dor. Vinham já de 3/3, 2/2, mas ainda que fossem em menor escala de tempo e maior escala de dor, não sincronizavam num ritmo perfeito.


A partir deste momento sem que eu fizesse muito esforço eu conectei com meu interior de uma forma muito especial, e como jamais havia acontecido antes, era como seu eu tivesse em dois lugares ao mesmo tempo, ali na sala com eles e dento de mim com minha bebê. Aumentou a dor, e quando me perguntavam se era forte eu só dizia que não podia mensurar porque não sabia o que viria pela frente, mas pela experiência dos envolvidos eles já sabiam em qual estágio eu estava. Ouvia de vez em quando a Dri dizer: Agora ta pegando! E tava mesmo. As contrações vinham e a minha sensação era que, pra amenizá-la eu deveria flutuar (RS), até a ponta do dedo do pé em contato com o solo era capaz de me causar um impacto tremendo na dor. Ela ensinou então uma posição em que eu me segurava no pescoço do Michel e relaxava meu corpo. Fizemos algumas vezes e foi bom pra caramba, até a dor aumentar e eu realmente ter a sensação que precisava flutuar mesmo, mas pra isso eu já estava quase derrubando o marido no chão.
Posso dizer que essa parte do trabalho de parto com dores intensas, gigantescas e quase incontroláveis duraram apenas uns quarenta minutos, onde do pescoço do marido, fui pro chuveiro. Escutava a gestante do quarto ao lado berrando de dor, coisa que não fiz em nenhum momento, e me lembro de ter dito, entre uma dor e outra, que queria muito gritar como ela...
Namaskar Yoga - Relato De Parto Alessandra + Michiel = Rebeca
Ficamos um tempo ali, a Dri ainda colocou o espelhinho pra que eu pudesse ver, toquei e senti o cabelinho dela, e isso foi um incentivo enorme pra continuar com mais e mais força.  Era examinada a cada contração, mas ainda assim ela precisava descer um pouco mais, então me sugestionaram que mudasse de local, assim com o movimento da bacia e numa outra posição com ajuda da força da gravidade poderia fluir melhor.


Fui pra cama, primeiro de costas, odiei, depois de lado menos mal, mas ainda não era assim que eu queria ficar. Então fiquei da sentada de frente, sentia que pressionar minha lombar era essencial. Sabia que não tinham muitas chances de eu sair daquela posição até que ela chegasse.


Continuei fazendo força a cada contração, salvo engano vinham em cerca de menos de um minuto, onde mal dava tempo pra me recompor da anterior, mas estava acabando, o pensamento era fixo nessa idéia.


Lembro que nos intervalos, curtíssimos, tomava água e suco de laranja, estava bem cansada já e confesso que deveria ter me preparado fisicamente um pouco melhor. Nessa hora o coro de “Vem Rebeca” já entoava na sala e na minha mente, sabia que estava perto, muito perto.


Comecei a sentir uma queimação, conseguia olhar, bastaram mais duas contrações e foi ali, naquela sala, que, embora fosse dentro de um hospital, era um ambiente completamente agradável, ameno, acolhedor, cheio de energia do bem, em que éramos quatro e nos tornamos cinco, sim.... ela chegou, respirei um pouco e na próxima contração mais um pouco pra que ela estivesse nos meus braços, ás exatas 20h58 e confirmando enfim a trilogia da Dri, (08/03/2016, às 20h58)


Tudo cessou.
A dor, a ânsia, o medo de não conseguir, a falsa idéia de impotência...
E nos meus braços ela permaneceu, ficamos trocando olhares, nos conhecendo pelo toque, pelo cheiro, o instinto. Tive uma pequena laceração, e enquanto isso levava alguns pontinhos. O pediatra fez os primeiros exames com ela ainda no meu colo, ela mamou muito.
Namaskar Yoga - Relato De Parto Alessandra + Michiel = Rebeca
Somente foi levada ao bercinho para pesar e medir, não houve qualquer intervenção que eu não tivesse autorizado até mesmo o banho postergamos para o dia posterior, e isso foi preservado com muito respeito.