Dia da gestante - relato de parto -  mãe de 3 - Jéssica Nigra

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Relato  de Parto Hospitalar Humanizado VBA2C
38+3 às 3:48 do dia 23/05/2017 chegou MARIA com 3040kg e 48 centímetros

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Senta que lá vem textão…pois são 3 relatos em 1, não poderia falar do Parto da Maria sem falar das duas Cesáreas anteriores que me trouxeram até o Parto Humanizado.

Esse relato começa na minha primeira gravidez que aconteceu quando eu tinha 17 anos, após ser diagnosticada por um Ginecologista como “infértil” pois não menstruava há mais de dois anos devido à Quimioterapia e Radioterapia feitas para tratar um Linfoma de Hodgkin que tive aos 13 anos, eu teoricamente ainda não estava curada do Câncer, pois para a cura total são necessários 5 anos de remissão da doença…pois bem, contrariando o diagnóstico lá estava eu, grávida na adolescência, apesar do susto a alegria foi imensa, pois ver algo impossível se tornando real, mesmo que tão cedo, não me deixou dúvidas…eu vou ser MÃE!!!


Na época morava no interior e cursava o segundo ano do ensino médio…terminei aquele ano e me mudei pra Santos, pois queria ter o melhor atendimento médico possível pra mim e pra minha filha, a gravidez apesar dos “supostos riscos” pelo recente tratamento do Câncer, foi absolutamente tranquila, engordei 7 kilos e não tive nenhuma intercorrência, porem naquela época eu não possuía conhecimento e informação sobre Parto, qualquer coisa que os médicos me falassem seria uma ordem, mas desde o início disse pra minha médica que eu queria Parto Normal…até que com 37 semanas segundo ela eu estava com “feridas no colo do útero” e precisava cauterizar…realizei esse procedimento em uma quinta-feira…no dia seguinte sentia umas leves cólicas e uma vontade imensa de fazer faxina, passei o dia limpando armários, até que na madrugada para o sábado enquanto dormia, minha bolsa estourou, fomos pro hospital, fui examinada pelo plantonista, segundo ele eu tinha 1 centímetro de dilatação, me colocaram o “sorinho” e me encaminharam pra enfermaria apesar de meu convênio ser apartamento, todos os quartos estavam lotados e eu deveria ficar lá sem acompanhante e aguardando liberar uma acomodação de acordo com meu convênio…devido aos traumas que eu tinha de hospitais, o fato de ficar ali, sozinha, sem ninguém da minha família, me deixou extremamente nervosa, a todo momento eu chamava a enfermagem e perguntava se já haviam liberado meu quarto…e nada.


Já farta daquela situação, umas 2 horas depois eu tirei o soro, arranquei aquela camisola do hospital, peguei a minha mala e disse que queria ir embora dali, ligamos pra minha GO “fofinha” e a mesma disse que me encontraria no outro hospital, assinei diversos termos e fui, chegando lá a médica e o seu marido (também GO) me aguardavam, fui examinada e segundo ela eu já estava com 4 centímetros de dilatação…aí que vem a “desculpa esfarrapada” para cesárea :
“Então como fizemos cauterização na quinta, hoje é sábado e seu colo do útero ainda está machucado, não podemos fazer Parto Normal. Você quer que o Pai assista o Parto? Pq se quiser vai demorar 1 hora ainda, pq a sala maior do Centro Cirúrgico está ocupada, mas se não se incomodar de ir sozinha, podemos ir agora" 


Eu mega ansiosa pra conhecer minha filha, disse que queria ir imediatamente, ali fomos para o Centro Cirúrgico, eu a médica e o marido dela que também participou do Parto, foi extremamente rápido, durou poucos minutos, às 10:48 nascia Ana Beatriz com 2990kg e 47 centímetros muito cabeluda, chorando alto e forte, Apgar 9/10, após os primeiros procedimentos trouxeram ela pra mim, embrulhadinha no lençol do hospital, chorou o tempo todo, pedi por favor pro anestesista soltar meu braço, assim que tocaram ela no meu rosto e eu pude acaricia-lá e dizer "Oi filha, é a Mamãe” ela parou de chorar, por 1 ou 2 minutos o mundo parou e eu fui a menina/mulher mais feliz do mundo, só agradecia à Deus por ter gerado uma vida…ela foi a maior prova do AMOR de Deus por mim, concretizou a minha CURA!!!


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12 anos depois, engravidei, estava com 29 anos, já não era mais uma menina, meu GO foi o mesmo que estava no Parto da Ana Beatriz e me acompanhou nesses anos todos, apesar dele não fazer parte do meu convênio fiz todo o Pré Natal particular para não abrir mão do seu atendimento, pois confiava nele, afinal fez o Parto da Bia e correu tudo bem, pagaria inclusive a parte pelo parto. Tirando o fato de ter tido muitos vômitos do início ao fim da gravidez, tudo correu bem, engordei 5 kilos dessa vez, mas aquela máxima “uma vez cesárea, sempre cesárea” eu ouvi desde a primeira consulta, eu nem sabia oq significava a sigla VBAC, pra mim aquela era a verdade absoluta, a única coisa que eu queria era esperar o Trabalho de Parto, ou seja ter algum sinal de que estava na hora dele, seguimos com o Pré Natal, até que por volta de 35/36 semanas o GO “fofinho” me disse que iria viajar e que voltaria quando eu estivesse com mais ou menos 40 semanas, ele indicou um “colega” pra me acompanhar nesse período, mas eu fiquei sem chão, indignada, pq ele sabia desde o início dessa viagem, poderia ter me avisado, pra eu me programar de outra maneira…decidi não procurar o “tal colega” eu não ia continuar pagando Pré Natal particular pra um médico que nunca vi na vida, decidi procurar algum médico do Convênio mesmo, marquei com a primeira que apareceu na frente e com disponibilidade de agenda, tive poucas consultas com ela, de cara ela já disse sobre agendar a Cesárea, eu estava cansada, magoada, me senti abandonada, o mal estar e cansaço naturais de fim de gestação, somado à falta de conhecimento, me fizeram tomar a pior decisão da minha vida, eu queria agendei a Cesárea, agendamos pra uma segunda-feira, na nossa cabeça seria melhor, pois o Pai aproveitaria melhor a licença Paternidade e seria dia de São João, “nossa que dia perfeito”…só que ninguém perguntou se o Joaquim queria nascer no dia 24/06/2013 às 8:48 com apenas 37 semanas e 6 


Pois bem no dia marcado acordamos bem cedo e fomos pro Hospital, na sala de Pré Parto, eu, marido, minha mãe e minha sogra, a médica chegou me examinou rapidamente e perguntou pro meu marido se já estava com todo o dinheiro que deveria ser pago em espécie, ele disse que sim e ali mesmo ela contou e colocou o bolo de dinheiro no jaleco (isso me marcou muito, ela fez meu parto com o $ no bolso)
Dessa vez não foi tão rápido como no Parto da Bia, Joaquim estava alto, a médica subiu na minha barriga (manobra de kristeller, proibida hoje em dia) ainda sim ele não nascia, usaram alguns ferros (fórceps)…ele nasceu!!! (Como é difícil escrever tudo isso)
Joaquim não chorou, passou por cima de mim, com um aspecto estranho, parecia desfalecido, foi para os cuidados, mil pessoas em volta, eu não enxergava nada, ele não chorava e isso me apavorava, ninguém dizia nada, meu marido ao mesmo tempo que tentava me tranquilizar, ficava na ponta dos pés tentando enxergar algo…foram os piores minutos das nossas vidas!!!
Ele foi estabilizado, me mostraram ele rapidamente, em seguida o Pai foi com ele pro andar de cima e eu fiquei ali, sozinha naquele Centro Cirúrgico, sem entender nada, ninguém me dizia nada, já no Pós Operatório perguntei pra uma enfermeira qual havia sido o Apgar dele 3/8, pedi pra chamarem a Pediatra, perguntei pra ela, pq o Apgar dele havia sido baixo, ela se limitou em dizer “Oq importa é a nota do 5º minuto Mãezinha”. Eu não acreditava, não queria estar ali sozinha, queria o meu bebe, queria saber como ele estava, queria toca-lo, pedi pra chamarem meu marido, a enfermeira disse que lá não podia entrar ninguém, pra eu ficar quieta pq se ficasse falando poderia me dar gases, mas eu insistia e chorava, ela disse que abriria uma exceção, mandou chamar meu marido e ele veio, disse q poderia ser bem rápido, a única coisa que pedi pra ele ele foi, pra ver alguma foto ou vídeo do Joaquim, ele pegou a Câmera do bolso e quando foi ligar disse que havia acabado a bateria…pronto, aí que fiquei ainda mais nervosa, eu só pensava as piores coisas, ele garantia que estava tudo bem, mas eu não acreditava…depois de sei lá quanto tempo me liberaram pra subir pro quarto, cheguei e Joaquim ainda estava no berçário, consegui finalmente ver uma foto dele (todos já tinham visto e fotografado meu filho, menos eu 😢)


Ele era tão lindo, parecia um anjo, aquele cabelo ruivo que eu sempre sonhei, a pele rosinha…mas eu queria ele, queria segurar, cheirar, abraçar e lamber a minha cria, algum tempo depois trouxeram ele em um bercinho e colocaram do lado da minha cama, mas eu não poderia levantar, a enfermeira disse que na hora certa (acho que 17hs) ela viria pra me ajudar a amamentar) o quarto estava cheio, toda a família estava lá (parto agendado é assim) e eu…eu só queria o meu bebe, todos vibrando de alegria, mas só eu e meu marido sabíamos todo o medo e desespero que  havíamos passado, mas ainda nem tivemos tempo de conversar um com o outro, antes do horário, eu pedi que me dessem ele, mesmo totalmente deitada e com ele meio de lado consegui amamentar, quando a enfermeira chegou ele já estava lá, atarracado nas tetas (quase 4 anos depois, continua assim).
Quando todas as visitas foram embora e eu já podia me sentar, peguei meu pequeno, tirei toda a sua roupa, olhei pra cada parte do seu corpo, acariciei, chorei e agradeci, naquele momento finalmente eu e meu marido compartilhamos o medo que sentimos…SIM, nós dois pensamos a mesma coisa, achamos que ele havia nascido morto, mas foi só um pesadelo, nosso Príncipe estava ali, lindo, saudável e cheio de vida.


O que vivemos naquele dia, nos causou muitas mágoas e muitas feridas, instintivamente o destino nos levou até a Humanização, conheci uma Roda de Mães da Namaskar Yoga (criado por aquela que futuramente seria minha Doula, Adriana Vieira) onde se falava sobre esse tema novo e desconhecido pra gente, ouvi relatos, aprendi muitas coisas, descobri o que era Violência Obstétrica e o quanto eu havia sido vítima dela, assisti a Palestra de uma médica incrivelmente Humana e cheia de luz…eu pensava, pq não conheci antes essas pessoas. Nesse espaço incrível participei de vários cursos e eventos, fizemos aulas de Baby Yoga, Shantala (massagem indiana para bebês), Materdança…como se numa “compensação” pelo parto traumático  eu buscava de todas as maneiras estudar e me aprofundar no tema “Maternidade”, criação com apego, Amamentação em livre demanda, Cama Compartilhada, introdução alimentar adequada, eu queria ser a melhor MÃE pro Joaquim.

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 Nessa mesma época lançou o Filme “O Renascimento do Parto” numa das sessões do Cinematerna fomos juntos assistir, eu e o Rapha choramos o filme todo, como nunca choramos antes na vida, aquilo foi libertador, naquele momento entendemos tudo que vivemos…vida que segue.
Nesses últimos anos que passaram apesar de ter a convicção de que não teríamos mais filhos, eu sempre tentei ajudar o máximo de pessoas possíveis, todas as amigas que engravidavam eu falava sobre humanização, e sobre minha experiência, eu queria tentar o máximo possível  que ninguém passasse por aquilo que passamos.



Até que quando o Joaquim já estava com 3 anos e 4 meses, Raphael com encaminhamento para Vasectomia…após todo esse período me dedicando exclusivamente a Maternidade eu estava voltando a trabalhar, um atraso menstrual que me parecia ser apenas “stress” devido essa volta ao trabalho, fizemos um teste de farmácia do mais baratinho…lá estavam 2 tracinhos, eu estava grávida novamente. Eu não queria, não aceitava, fui em uma médica só pra confirmar, queria um exame de sangue, ela disse que não iria pedir teste, que eu estava grávida e já pediu os exames pré natais…bom se eu estava mesmo grávida eu faria meu Pré Natal com aquela médica maravilhosa que  vi na Palestra lá atras, diga-se de passagem ela é um das únicas que encararia um Parto Natural após 2 cesáreas, a mesma médica que eu indicava pra todas as amigas que engravidavam, eu já havia passado com ela umas 2 vezes pra consultas de rotina, lá fomos nós, ela pediu um ultrassom, nesse exame conseguimos ouvir o ❤️ que emoção, mas ainda não tinha caído a ficha, eis que o médico fala que eu estava com um “descolamento” um “hematoma coronariano” perguntou quem era a minha médica e pediu que eu entrasse em contato com ela imediatamente, assim o fiz, em menos de 20 minutos, aquele anjo estava lá no hospital, me abraçando, me acalmando e dizendo que tudo ficaria bem, me prescreveu medicação e repouso, como foi difícil essa sensação, esse medo de perder, alguém que a pouco vc dizia não querer, pedi muito perdão pra deus, rezei muito e 15 dias depois, repetimos o ultrassom e tudo estava bem…seguimos nossa gestação, naquele momento eu só pensava. EU VOU PARIR!!! Precisava de uma Doula, não poderia ser outra se não ela que nos apresentou todo esse mundo…a Adriana Vieira.


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Alguns sustos durante a gravidez, como ser atropelada por uma bicicleta, baixa do líquido amniótico…mas nada disso deixava eu parar de pensar no Parto que eu queria e que merecia…talvez eu tenha romantizado demais.
Tive muitas contrações de treinamento desde às 20 semanas, o que me fez pensar até mesmo em parto prematuro em alguns momentos, mas me acostumei com as contrações e seguia a vida. Estudei, li, reli…

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A gravidez estava bem, sem intercorrências e muito saudável, mas a nossa vida nesses 9 meses foi um turbilhão de emoções, muitas coisas aconteceram e exigiram demais da minha força emocional e psicológica pra lidar com tantos problemas…como isso cansava, eu só queria PAZ!!!
Eu tinha certeza que ela nasceria com 37 semanas, nessa semana cheguei ao meu nível máximo de ansiedade, isso não era bom, tudo eu achava que era sinal de TP, os pródromos eram cada vez mais intensos, a cada dia uma nova sensação e eu pensava “vai ser hoje” na quinta feira (37 semanas e 6 dias) um alarme falso, pois as contrações que até então não eram doloridas começaram a doer, fomos ao hospital, nada de dilatação, médica falou pra eu me movimentar e voltar no fim do dia, ligamos pra Doula, que estava em outra cidade, ela veio pra Santos, me passou um “shake” e pediu pra eu caminhar na Praia, lá fomos nós , eu Rapha e Bia, andamos em ritmo forte por mais de uma hora, parava de vez em quando, agachava, rebolava (a louca na Praia) eu não podia acreditar, estava chegando a hora, pensava que naquela noite minha filha nasceria…após andar feito doida, tomar shake, dormir, descansar, no fim do dia voltamos na médica, ela examinou e nada, nenhum sinal, ela me pediu pra relaxar ir pra casa descansar, que não estava mesmo na hora, que ainda eram prodromos, que quando fosse mesmo a hora eu saberia…FRUSTRAÇÃO, fiquei triste, chateada, no dia seguinte completava 38 semanas e fui fazer o último ultrassom, todos na clínica perguntavam “já marcou a cesárea?” eu fazia cara de paisagem, quinta, sexta e sábado ficamos na casa da sogra, pois era mais fácil pra ir ao medico e fazer exames e também pq meu marido ia sair pra cantar, no sábado à noite finalmente depois desses dias pra lá e pra cá, voltamos pra casa, eu estava muito cansada, pois desde então além das contrações de treinamento eu sentia algumas dores, eu só queria meu cantinho, minhas coisas e a minha casa, domingo só descansamos…na segunda amanheci com mais dores que antes, Adriana (Doula) me chamou no WhatsApp e perguntou como  estava, eu disse que com mais dores, um pouco de intestino solto e vomitado uma vez, ela perguntou se eu estava marcando as contrações, eu não marcava mais nada, não aguentava mais ver a cara daquele aplicativo, ela disse que estava por perto cerca de 40 minutos dali fazendo um curso, porém como meu último contato com ela foi às 13hs, ela voltou pra casa  (fica em outra cidade) que era um pouco mais distante.
Raphael (meu marido) veio almoçar em casa, eu pedi pra que ele não voltasse ao trabalho na parte da tarde, mas não poderia fazer isso sem irmos ao médico pra ter um atestado que justificasse sua ausência, eu falei das dores e ele mandou mensagem pra médica, falando como eu estava, pq eu não queria mais mandar mensagem, estava cansada de “alarmes falsos”, não queria mais falar com ninguém, ela pediu pra observar a evolução e se eu quisesse poderia ir ao Hospital ou Consultório avaliar, imediatamente eu desisti da ideia, afinal tudo que eu não queria era sair mais de casa, ficamos por ali, almoçamos, até demos uma namoradinha (acho que também ajudou). Ele voltou pro trabalho e eu fiquei com o Joaquim em casa, fiquei um tempo deitada, cansei, decidi levantar e fazer algo, distrair a cabeça e tirar o foco da dor.
Minha casa já estava limpa, pois no ócio dos últimos dias eu só sabia limpar e limpar, mas lá fui eu novamente pra uma super faxina, sai limpando tudo, lavando banheiro, limpando janelas, até sacada e churrasqueira eu limpei, quando uma contração vinha, eu segurava no rodo ou onde estivesse e me abaixava, Joaquim (meu mini doulo) vinha me fazia carinho e dizia calma mamãe, respira fundo vai passar e me mostrava como eu tinha que respirar…eu só conseguia sorrir e agradecer a Deus por ter um filho de 3 anos  tão maduro e sensível.
Marido chegou do trabalho e eu estava lá, animadona na faxina, coloquei pra tocar músicas sertanejas beeeeem antigas, a maioria delas o Rapha diz que nunca ouviu na vida, entre uma moda de viola e outra, pegava o Joaquim no colo, dançava, rebolava, cantava e me lembrava do meu Pai, que já se foi e que amava e cantava tanto essas musicas, por isso essa minha paixão tão peculiar.
Inúmeras vezes tanto a médica como a Doula me falavam sobre minha ansiedade e que ela seria a minha pior inimiga pra conseguir o meu tão sonhado Parto Natural, mas justamente naquele dia instintivamente mesmo sem me dar conta eu estava fazendo tudo que deveria para evoluir, já estava em trabalho de parto e não sabia, esse “relaxamento”, esquecer um pouco foi fundamental para as coisas fluirem, PARIR é mesmo MÁGICO!!!
Depois de terminar devia ser umas 19hs pedi pro marido assar umas Mini Pizzas e fui pro banho, pensei agora vou relaxar, comer e dormir…eu estava EXAUSTA!!!
No banho comecei a ficar enjoada e sentir mais dores, Rapha ficou preocupado, entrou no banheiro e decidiu  ligar pra médica “Doutora a Jessica tá de quatro no chuveiro e vomitando” imediatamente ela diz “Vai nascer, venham pro Hospital”
Ainda sim eu não acreditava, não queria ir, preferia  esperar mais um pouco, eu queria algum sinal diferente como a saída do tampão, estourar a bolsa, qualquer coisa…eu pensava que seria um papelão, chegar lá no hospital, fazer a médica sair da casa dela e não ter nada, e mais uma vez voltar pra casa, mas fui convencida, terminei o banho me vesti e vesti o Joaquim, as bolsas já estavam no carro fazia tempo, de casa até o hospital leva cerca de 40 minutos, Rapha enfiou as pizzas num pote e fomos, pedi pra ele não avisar ninguém, nem a Mãe e Irmã dele que sempre ficavam com o Joaquim quando precisávamos, disse que iríamos com ele e após ser examinado se realmente houvesse necessidade nós avisaríamos e levaríamos ele até lá (elas moram bem perto do hospital) eu preferia não avisar pra não criar ainda mais expectativa com medo da frustração.
No caminho Joaquim foi mamando…sim!!! Ele ainda mama no peito e mamou por toda a gravidez, só parou no período em que tive que fazer o repouso, foi uma fase bem difícil pra nós dois. Eu com ele no peito, vocalizava a cada contração, Rapha começou a observar, pelo relógio do carro mesmo (nada de aplicativo) estavam cravadas de 4 em 4 minutos, no meio do caminho a Doutora Izilda ligou e perguntou onde estávamos e sobre as contrações, Rapha disse a localização e o tempo das contrações, ela perguntou o Convênio e disse que já ia preparando minha internação…eu pensei “eita a coisa ficou séria” nos entreolharmos e rimos…será mesmo que a Maria tá chegando? Era um misto de ansiedade, alegria e medo, principalmente o medo de não ser a hora…eu tentava manter a calma, coloquei uma música linda do Padre Marcelo que sempre me acalmou e a letra toca fundo no coração e diz exatamente aquilo que eu precisava ouvir naquele momento: Já deu tudo certo!!!
Decidimos que era melhor deixar o Joaquim na Avó, ele ficou chorando, pois segundo ele queria ir com a gente buscar a irmã, ele tinha até uma malinha com a roupa
que  escolheu pro grande dia, ficou aos prantos no colo da Dinda e com sua mochilinha nas costas, que aperto me deu no coração.
21hs mais ou menos chegamos no Hospital, só demos o nome, Rapha assinou a internação e entramos direto pro Consultório, lá estava ela, aquele anjo que transmite uma paz, só no olhar…Drª Izilda, me examinou e disse 3 centímetros, naquele momento eu só chorava, ela ligava pra Adriana e dizia que poderia vir, Maria ia nascer, eu dizia eu consegui, eu consegui, ela “calma, tem muita coisa ainda”…era só isso que eu pedia pra Deus, que ela escolhesse a hora dela, a via que ela vai nascer nesse momento não me importa, o meu maior desejo já se realizou…hoje é o dia dela, ela escolheu!!!
Adriana do outro lado no telefone ouvia tudo emocionada e chorava junto comigo, me parabenizou e disse que estava a caminho “me espera Maria”
Fomos fazer o cardiotoco, assim que ligou o aparelho PLOC bem alto, uma água quente escorreu, a bolsa estourou…de tanto que já tínhamos feito o exame já sabíamos até ver o resultado…sim eu estava com contrações ritmadas e o trabalho de parto estava a todo vapor.
Me ofereceram uma cadeira de rodas pra ir até o quarto, recusei claro, fui andando e me agachando entre as contrações…meu Deus como eu esperei por isso!!!
Montamos nosso altar, com tudo aquilo que preparei com tanto amor e com alguns mimos que ganhei de pessoas especiais, baixamos a luz, ligamos numa rádio de pagode e começamos a dançar, estávamos felizes, eufóricos…nossa Maria ia chegar, era uma atmosfera de magia e amor, eu o Rapha e nossa pequena, fui pro chuveiro, as dores começavam a aumentar, Dri pelo telefone ia orientando o Rapha (foi o melhor Doulo do mundo). Quando vinham as dores ele massageava minha lombar como ela havia ensinado, respirava junto comigo me mostrando como eu deveria fazer e dizia “tá passando, tá passando” e sim a dor passava e nesses curtos períodos eu tentava descansar…Meu Deus eu estava exausta (maldita faxina), eu queria dormir, descansar, mas o TP não para e a cada momento exigia mais de nós.
Por volta da meia noite Drª Izilda veio me examinar novamente, 5 centímetros…deveríamos descer pra Sala de Parto Adequado, meu Deus, estava mesmo acontecendo!!!
Juntamos as coisas que gostaríamos de levar pra essa sala…eu tinha planejado tudo, as velas, as fotos, minhas santinhas, meu terço…o top que eu queria usar na hora do parto, até maquiagem eu queria fazer…doce ilusão, nesse momento eu ainda estava “consciente”. Lá vem a cadeira de rodas novamente, eu neguei, a cada 3 passos me agachava…a enfermeira brincou depois e disse que eu parecia uma “lagartixa” na parede…kkkk
Na sala de Parto Adequado, a enfermeira me apresentou todos os apetrechos disponíveis, bola, cavalinho, banquinho, falou da piscina…eu só queria a bola, nunca pensei que sentiria falta daquela bola que me acompanhou por tanto tempo em casa, Rapha continuava a me massagear, pedi pra ligarem o chuveiro.
Por volta de 1 da manhã a Adriana chegava…ufa que alivio, ela com aquela “malinha mágica” cheia das suas “bruxarias” seus óleos, essências, homeopatia…até na boca do Rapha ela pingou umas gotinhas, a mão dela era realmente mágica, quando as contrações (que já estavam punk) vinham eu só pedia “Dri massagem”…acho que nesse momento entrei de vez na PARTOLANDIA…não é que ela existe mesmo, coisa louca, depois disso só tenho flashes, preciso da ajuda do marido e das fotos pra continuar o relato, eu fiquei praticamente o tempo todo de olhos fechados e sem falar nada, quando falava era “eu não quero mais”, “quero anestesia”, “chama a Doutora”, “cadê o anestesista”…segundo o Rapha eu também pedi Cesárea (essa parte eu realmente não Lembro)


Na minha doideira eu achava que se tomasse uma anestesia eu poderia dormir e descansar um pouco, pra depois continuar, meu pior inimigo era o cansaço.
Eu aguentava firme, era só a Doutora entrar na sala eu começava a chorar e pedir anestesia…tipo quando filho vê a mãe e começa fazer birra, ela me examinou estava com 6 centímetros…pensei “como assim? Toda essa dor, todo esse tempo e evolui só 1 centímetro”
Chuveiro quente, lá fui eu, vocalizava, respirava, chorava, minha playlist linda tocava, a cada música uma emoção, uma força diferente, mas quando tocava “Maria,Maria” da Elis Regina, uma FORÇA e uma MAGIA tomava conta de mim e do ambiente, exatamente como diz na música:

“Mas é preciso ter força,
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo essa marca
MARIA, MARIA
Mistura a dor e alegria”

Parir é exatamente isso, um misto de Dor e Alegria, é a dor da vida, é a dor do amor, confesso que já sinto saudade daquele momento.
No chuveiro quando eu chorava e implorava pra Adriana chamar o anestesista, ela me chamou pra realidade e disse “Jé, você chegou até aqui, você sabe as consequências que isso pode desencadear”, eu sabia que uma anestesia poderia colocar tudo a perder, mas eu achava mesmo que dava pra descansar e pedi pro Rapha chamar a Doutora, durante a gravidez conversamos muito, pois sabíamos que esse momento chegaria, o momento que a gente não aguenta mais, o momento em que queremos desistir, sempre falei pra ele, que na hora,ele que diferente de mim estaria consciente e lúcido, analisasse a situação, se  achasse que ainda faltava muito e que eu estava sofrendo pra deixar tomar a anestesia, mas se visse que estava perto e evoluindo bem, pra me “enganar” e não  me deixar  tomar…quando ela me examinou disse “dilatação total, vai nascer”
Oi…como assim, 10 minutos atrás estava 6 como tão rápido, não é possível, eu pensava é mentira, estão me enganando, pra eu não desistir, entra na sala a equipe de enfermagem, ligam o bercinho, começam a preparar as coisas para receber Maria, desligam o ar condicionado…eu falava, sério Doutora??? Vocês não estão mentindo pra mim? A louca eu!!!
As dores passaram, quando as contrações vinham, não doíam mais, eu só queria fazer força, eu estava ali na cama, semi deitada, posição que não era a que eu “romantizei”, Dri, Doutora e Rapha me ofereciam outras opções, mas eu não respondia, só ficava de olhos fechados, eu estava dentro de mim, eu e Maria éramos uma só naquele momento, ainda sim eles tentaram, colocaram a barra na cama pra eu ficar de cócoras, colocaram o banquinho…mas não rolava, era daquele jeito que meu corpo queria, com os pés apoiados e na cama…Maria corou, era cabeluda, Rapha MEGA EMOCIONADO, dizia “ela tá aqui amor, mais um pouquinho só de força que ela nasce,ela é cabeluda”
Ele me guiou, me dizia o que fazer, me ajudava na hora da força, Doula e Obstetra só observavam, aquele “Pai Parteiro” mais lindo do mundo, instintivamente, ele que é um medroso, não pode nem ver sangue, estava ali, forte, corajoso, como se já tivesse feito isso muitas vezes…me pediam pra tocar o cabelo dela, mas eu não conseguia, tinha medo, sei lá…Dri colocava compressa de água fria na minha testa, eu puxava e cobria o rosto…meu projeto de parir Diva, maquiada e com um top lindo…foi por água a baixo, eu estava nua, descabelada, queria aquelas fotos lindas que eu via nos relatos, a maioria das minhas fotos ficaram “impublicáveis”…mas pra mim são lindas!!!
Ao som de Anunciação de Alceu Valença…às 3:48, num pluft Maria nasceu de uma vez, linda e chorando bem forte, Apgar  9/9, veio direto pro meu colo, quentinha, com aquele cheiro indescritível, Rapha chorava de soluçar, após parar de pulsar ele cortou o cordão. EU PARI!!! Naquele momento paria Maria, Joaquim e Ana Beatriz, esse Parto não foi por mim, foi por eles e pra eles…meus filhos. Eu venci, venci o sistema, venci o preconceito, venci os meus medos e vivi A MELHOR EXPERIÊNCIA da minha vida.
Obrigada sempre será pouco pra agradecer Drª Izilda e Adriana, por terem acreditado em mim e principalmente pro homem que depois daquele dia eu passei a amar e admirar muito
mais…meu marido, meu herói e meu parteiro Raphael ❤️

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